Coronavírus e o Agronegócio - Em tempos de covid-19, setor de HF se reinventa!

As medidas de restrição de circulação de pessoas durante a pandemia da Covid-19 no Brasil – como o fechamento de escolas e bares, redução (ou paralisação) das atividades em restaurantes e operações limitadas em varejos de menor escala (feiras), importantes canais de escoamento de frutas e hortaliças – trouxeram grandes desafios a toda cadeia produtiva de alimentos. Com a menor demanda nas roças, as perdas de produtos, especialmente dos mais perecíveis, se elevaram, prejudicando fortemente de pequenos a grandes agricultores.

Momentos de crises também são de oportunidades e foi neste cenário de incertezas e de dificuldades que diferentes canais de distribuição e de comercialização de frutas e hortaliças se reinventaram, para “driblar” a quarentena e continuar se conectando com compradores e consumidores finais. Dentre as alternativas utilizadas por vendedores esteve a comercialização por meio de aplicativos de troca de mensagens, redes sociais, serviços de entrega e até por drive-thru. Além disso, algumas parcerias entre entidades públicas e privadas foram realizadas. E todos esses novos modelos de negociação podem seguir promissores mesmo no futuro “pós-pandemia”.

De uma forma ou de outra, meios digitais já faziam parte da rotina de produtores e comerciantes de HF, mesmo que apenas para comunicação. No entanto, com a crise atual, as vendas precisaram ser adaptadas – e às pressas! Para os consumidores, também houve mudança. Segundo o estudo “Barometer Covid-19”, da empresa inglesa Kantar, realizado em março deste ano, no grupo de alimentos e bebidas, 17% dos entrevistados disseram ter sido a primeira vez em que compraram este tipo de produto on-line.

O estudo também avalia que a Covid-19 funciona como um “catalisador para mudanças”. Do lado do consumidor, muitos devem aumentar a confiança em comprar on-line e reconhecer a conveniência em receber o produto em casa. Comerciantes, por sua vez, identificarão uma necessidade de adotar um serviço que, até então, era considerado desconfortável e caro.

As grandes redes de comercialização de HF, por exemplo, apostaram ainda mais nas tecnologias digitais e precisaram se adaptar para atender à crescente procura por estes serviços. Os grupos Hortifruti Natural da Terra e Oba Hortifruti ampliaram as entregas via delivery, com pedidos por meio de site, WhatsApp ou até mesmo aplicativos próprios.

Quanto aos pequenos negociantes de HF, diversas iniciativas têm circulado em redes sociais e em grupos de aplicativos, dando suporte na comercialização e demonstrando a importância da conexão entre o produtor e o comprador. A Hortifruti Brasil destaca a seguir as principais inovações na comercialização de frutas e hortaliças durante a quarentena, com exemplos de empresas que estão utilizando estes novos modelos de negócios.

Venda direta ao consumidor por redes sociais

Além de produtores, muitos atacadistas também estão se reinventado para escoar parte de sua mercadoria diretamente para o consumidor, via pedidos por redes sociais. Em Teresina, capital do Piauí, a Nova Ceasa, centro de distribuição da cidade, passou a divulgar os números de telefones dos boxes que faziam delivery direto ao consumidor. Até então, esta modalidade de venda direta ainda era muito tímida, tendo em vista que poucos tinham a logística necessária para oferecer a entrega de seus produtos. Porém, depois que a Ceasa divulgou os telefones dos boxes, os pedidos começaram a aumentar e outras empresas, que ainda não operavam desta forma, aderiram esse tipo de venda – inclusive os feirantes associados à central de distribuição. Com o apoio da entidade, as vendas por delivery foram a “salvação das lavouras” que comercializam para a Ceasa local, suprindo a redução dos pedidos para atacado.

A entrega direta para o consumidor também tem sido adotada nos pequenos varejos. A comerciante Alyssa Gabriela Ribeiro, proprietária de um pequeno hortifrúti em Campinas, próximo à Ceasa, limitava suas vendas ao próprio bairro antes da quarentena. Com a chegada do coronavírus, no entanto, ela decidiu apostar no delivery de suas frutas e hortaliças, com divulgação e encomendas via WhatsApp. Ela recebe os pedidos no dia anterior ao da entrega, para adquirir os produtos na Ceasa ou diretamente de produtores locais – assim, com as compras diárias, ela consegue oferecer HF’s a preços mais competitivos. A expectativa é que os clientes conquistados nesta nova modalidade de venda se tornem consumidores fiéis.

Drive-thru - Compre HF sem sair do carro!

O sistema drive-thru se estendeu das redes de fast food para os comerciantes de HF. Dentre os exemplos que têm dado certo estão os serviços de drive-thru adotados em feiras livres, como nas cidades de Bebedouro e Piracicaba, no interior de São Paulo, e em Brasília (DF).

Em Bebedouro, a prefeitura readequou a tradicional feira livre da cidade, realizada todos os domingos, em uma das praças locais, para a Feira Drive-Thru, no Sambódromo Municipal, como forma de escoar a produção dos produtores. Em Brasília (DF), produtores de frutas e hortaliças orgânicas estão se organizando e realizando vendas em estacionamentos de regiões administrativas em diversos pontos da cidade –, mas, se o cliente preferir, esses mesmos produtores também entregam a domicílio. No geral, a maioria dos supermercados e das grandes redes de varejo de HF já apostava em vendas via e-commerce (sites ou aplicativos), mas essa modalidade ainda não era totalmente difundida entre os clientes.

Funcionalidade semelhante tem o Matchfood, um aplicativo com abrangência internacional, lançado no mês passado, no intuito de otimizar o comércio de alimentos (frutas, hortaliças, castanhas, ervas e temperos) e reduzir desperdícios. Preparado inicialmente para atender produtores, comerciantes, distribuidores, atacadistas, varejistas e membros do food service, a ferramenta tem aceitado consumidores finais, desde que estes adquiram a quantidade mínima requerida pelo produtor.

Outro exemplo desta categoria é o sistema CNA/Senar “Comércio Eletrônico”, lançado em abril/20, pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil), cujo objetivo é aproximar produtores rurais, redes de supermercados, cooperativas e empresas de logística, para facilitar a comercialização de produtos do campo. Os interessados podem se cadastrar no portal da CNA, indicando quais produtos têm para ofertar, enquanto o comprador poderá informar sua demanda e região de abrangência.

Cestas e listas de assinatura - HF na porta de casa!

Outra modalidade que tem funcionado como importante canal de escoamento de HF’s durante a quarentena é a comercialização de cestas, que são entregues de porta em porta. Apesar da existência de aplicativos de entrega de alimentos prontos, para o caso de frutas e hortaliças, o cenário não era tão comum. Assim, muitas associações de hortifrutícolas e grupos de produtores passaram a apostar nesta modalidade neste momento de crise.

No Rio de Janeiro (RJ), o site JAEÉ – “Do campo para a mesa”, nasceu de uma pequena loja e, durante a quarentena, tem auxiliado pequenos produtores agroecológicos, por meio da venda on-line de cestas de frutas e hortaliças, entregues diretamente ao consumidor final. Há, ainda, a possibilidade de adquirir a cesta e destiná-la à doação. Além de garantir o sustento dos pequenos agricultores, a iniciativa ainda ajuda a reduzir o desperdício de alimentos e entrega produtos saudáveis e frescos aos clientes.

Divulgação - Marcando presença na mente do consumidor

A divulgação do negócio é uma das principais ferramentas para se realizar as vendas. De olho nisso, produtores, varejistas, associações e empresas do setor têm investido fortemente no estímulo ao consumo de HF’s – reforçando, por exemplo, seus benefícios nutricionais.

É o que tem feito o distribuidor de produtos agrícolas Francinaldo Alves, de Mossoró (RN). Desde o início dos casos de covid-19 no Brasil, Alves tem visitado produtores na região potiguar e publicado vídeos de fruticultores, comentando sobre como estes têm se reorganizado no trabalho nas roças e sobre os benefícios das frutas para a saúde da população, no intuito de estimular o consumo e fortalecer o setor.

Outra estratégia tem sido a divulgação de receitas saudáveis para pessoas que estão em quarentena em casa e que estão preparando suas próprias refeições. Pesquisa da consultoria Galunion, especializada em food service, e do Instituto Qualibest, divulgada em abril de 2020, mostra que 93% dos entrevistados disseram estar cozinhando e preparando comida em casa neste período isolamento. Um exemplo disso é a ABVGS (Associação dos Bataticultores da Região de Vargem Grande do Sul), que tem divulgado vídeos de receitas em suas redes sociais para promover o consumo de batata.

Mas afinal, quem veio para ficar?

Pesquisa da Galunion com consumidores brasileiros indica que a compreensão de mudanças nos critérios de escolha e do comportamento do cliente e a aceleração digital serão alguns dos principais pilares para que empresas do setor de alimentos se ajustem ao chamado “novo normal”, após a pandemia. Assim, o momento atual tem sido importante para que as preferências dos clientes sejam identificadas e para que vendedores, por sua vez, se adaptem ao uso de novas tecnologias.

De maneira geral, a comercialização virtual deve continuar fazendo parte da rotina de grandes redes varejistas, especialmente para as que já vinham usando esse tipo de venda. Já quanto aos pequenos varejos, produtores e atacados, estes começam a ver esse modelo de comercialização como uma oportunidade atual de divulgar seus produtos e serviços, além de se aproximar do consumidor, e também promissor no futuro, mas este tipo de atendimento ainda necessita melhor planejamento para que todos os esforços não sejam em vão.

Nesse sentido, um ponto importante é a variedade e disponibilidade de produtos. Os HF’s ofertados precisam ser capazes de abastecer a demanda e atender às necessidades dos clientes. Um segundo ponto é a logística, já que, na maioria dos casos, a entrega tem sido realizada com veículo próprio – e, algumas vezes, inadequado – e a longas distâncias, o que, no fim das contas, pode encarecer os custos. A infraestrutura, por sua vez, é um terceiro item que deve ser levado em consideração, especialmente para os que querem investir em drive-thru (como as feiras). Neste caso, o deslocamento de feiras para outros espaços dependeram de iniciativas municipais e precisariam, portanto, continuar recebendo esse tipo de apoio no período pós-pandemia.

Agora, mesmo que o apontado acima seja realizado de forma eficiente, ainda é imprescindível a união por parte do setor de HF, tanto de produtores, dispostos a trabalhar juntos e oferecendo o que têm de melhor em sua fazenda, quanto da comunidade, aberta a experimentar o novo e apoiar comerciantes locais. Cabe a cada negócio adaptar seus planos à tecnologia disponível e às formas de atendimento que melhor se adaptem ao seu perfil.

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Fonte: Cepea-Usp/Hf Brasil