Milho: produção e mercados

1 Mercado global

O milho é um dos três cereais mais plantados no mundo. São 150 espécies diferentes, e apesar do grande uso na culinária, a maior demanda é pela indústria de ração animal (53% da demanda total, contra 2% da demanda para consumo humano). Estados Unidos, China e Brasil produziram 64% do 1,11 bilhão de toneladas em 2019/20, com previsão de 5,3% de aumento para a atual safra, para 1,17 bilhão. A China é o segundo maior consumidor de milho, em grande parte para consumo animal (até 80% da composição), mas em virtude da grande produção, é apenas o oitavo importador, e; Argentina e Brasil completam os três maiores exportadores mundiais.

A pandemia parece não ter atingido tanto os números da cultura, com a baixa da produção, consumo e exportação entre a safra de 2018/19 e a de 2019/20 parecendo mais relacionada aos problemas climáticos (tempestades de vento e uma forte seca) dos Estados Unidos, que lideram o rol nessas três variáveis, e também à quebra da safra na Ucrânia, quarto maior produtor mundial. Em relação ao milho, a China sofre menos as consequências do conflito comercial com os EUA do que com a soja, já que é o segundo maior produtor.

2. Brasil

O mercado de milho está num momento promissor para o produtor, mesmo com a pandemia, já que as projeções apontam para aumento de área e produção. O mercado deverá seguir em expansão na atual safra (2020/21) por conta da elevação de exportações, da retomada da demanda por etanol de milho e da sustentação da demanda para ração animal, uma vez que a China ainda não recuperou seu plantel de animais no nível anterior à peste suína africana (PSA), ocorrida em 2018

Espera-se leve redução na produção em 2021, de 0,74%. Com a expectativa de recuperação econômica e a dos preços do petróleo, os EUA devem elevar seu consumo total de milho após a retomada da atividade e restabelecer a sua produção de etanol de milho; o consumo mundial deve aumentar, reduzindo os estoques; e a Ucrânia deve expandir sua comercialização com a China, União Europeia e norte da África, após a expansão de sua capacidade portuária.

Os maiores produtores de milho brasileiros são (na ordem): Mato Grosso, Paraná, Goiás, Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. A produção do Mato Grosso é superior, inclusive, à das demais regiões do País. No Rio Grande do Sul, problemas climáticos prejudicaram o potencial produtivo das lavouras, tanto na primeira como na segunda safra. A quebra de 31,8% na produção de 2019/2020 reduziu a produtividade nacional em 3,3%, em relação a 2018/2019. O Estado é o sétimo produtor nacional, dentro da segunda maior região produtora.

Recente informação do IBGE (2020) a respeito da Produção Agrícola Municipal (PAM) de 2019, coloca o milho como um dos responsáveis pela alta gerada no Valor Bruto da Produção (VBP), que cresceu nacionalmente 5,1% em relação a 2018, atingindo R$ 361 bilhões, puxado pelo crescimento no VBP do milho, que foi de 26,3%, no mesmo período.

A maioria das atividades relacionadas à agropecuária já é praticada de forma naturalmente isolada no campo. Tendo em vista este fato e sua importância na manutenção do bem-estar da sociedade, foram consideradas essenciais durante a pandemia, o que possibilitou, junto com a demanda externa aquecida e o dólar elevado em relação ao real, pela incerteza gerada, que o País batesse recordes nas exportações de carnes, que levam milho como insumo da ração, ainda que as exportações do cereal representem cerca de um terço da produção e tenham sofrido queda de 2018/2019 para 2019/2020 (-16%, de 41 milhões de toneladas para 35 milhões).

Os preços do milho elevaram-se, de julho ao presente, em razão da demanda interna aquecida, da elevação das exportações, favorecidas pelo dólar também alto, e pelo baixo interesse dos vendedores em negociar grandes lotes. Ainda que a colheita da segunda safra tenha avançado, produtores limitam a disponibilidade, esperando novos aumentos nas cotações, fazendo com que as cotações internas batessem recordes nominais das séries históricas do Cepea, em setembro.

No momento, a tendência é de alta, com algumas consultorias projetando preços de R$ 70/saca-60 kg em outubro e R$ 75 em novembro. A baixa disponibilidade, com estoques finais abaixo da média dos últimos anos, o aumento de demanda de carne pela China e a quebra de safra em alguns produtores internacionais importantes, como os EUA e a Ucrânia, podem deixar os preços internacionais em alta, elevando também os preços internos.

No entanto, as exportações aquecidas também têm consequências negativas, como o enxugamento da disponibilidade interna e o encarecimento do milho para ração animal, pressionando os custos da suinocultura e da avicultura de corte e de postura.

3 Nordeste

A milhocutura no Nordeste apresenta perspectivas de crescimento. Mesmo sendo cultura tradicional na Região, muito comum como agricultura de subsistência, a abertura de novas fronteiras agrícolas, desde a década de 1970, possibilitou a expansão do cultivo, na forma empresarial, na região do Matopiba (confluência de territórios do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia, com 62% dessa região sendo nordestina), e recentemente, no Sealba (região contígua de 5 milhões de hectares que une o leste de Sergipe e Alagoas e o nordeste baiano). Inclusive a produção de milho dessa região, somada à de Pernambuco e de Roraima, que coincide com a produção do hemisfério norte, tem sido registrada pela CONAB como a terceira safra no País, cuja coleta estatística vem sendo feita de 2018/19 para cá, correspondendo a 3% da produção total anual. Bahia, Maranhão e Piauí são os maiores produtores nordestinos, e de nono a décimo primeiro nacionais, na ordem.

Produção e produtividade estão se expandindo, e, em relação ao início da década (2010/2011), a produção subiu 38% e a produtividade, 65%. A área nordestina com milho caiu 16%, muito pela concorrência com a soja. E vale destacar o desempenho de Maranhão e Piauí, que chegou a ser maior produtor regional na safra 2018/2019, com crescimentos relativos de produtividade e produção superiores a 130%, no mesmo período, devido à expansão do milho no Cerrado, com aumento de área apenas no Piauí (38%). A capacidade dos produtores, o desenvolvimento de cultivares adaptados à região e ao clima pela EMBRAPA, e as precipitações geralmente regulares, fizeram com que o cultivo de milho se destacasse no agronegócio do Nordeste (Tabela 1).

Tabela 1 – Área, produtividade e produção de milho no Nordeste, último triênio

Fonte: Conab (2020).
Nota: (1) Previsão, em outubro/2020.

Os preços do milho ao produtor em Barreiras (BA), na média do Estado do Piauí e do Maranhão, seguem tendências semelhantes às demais praças produtoras do País, estando relativamente constantes durante 2019 e subindo, em 2020, por conta do aquecimento da demanda e da alta do dólar, em razão da pandemia.

Acesse a análise completa neste link.

Autor: Jackson Dantas Coêlho é Economista, Mestre em Economia Rural, funcionário de carreira do Banco do Nordeste há vinte anos, onde atua como Coordenador de Estudos e Pesquisas (pesquisador) da Célula de Estudos e Pesquisas Setoriais do Escritório Técnico de Estudos Econômicos do Nordeste (ETENE).

Fonte: Caderno Setorial ETENE